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13 de agosto de 2009

Discurso racista? Um estudo de caso

O humorista com as 'personagens' da polêmica depois do arquivamento de seu processo


Recentemente uma piada escrita em um site de relacionamentos da Internet, o Twitter, por Danilo Gentili, humorista e repórter do CQC (Custe o que custar), gerou grande polêmica na sociedade por haver nela um suposto racismo.

Por isso, com base em alguns fundamentos da Análise do Discurso, a piada será analisada e verificaremos se há, ou não, o preconceito no texto humorístico.

Danilo Gentili é muito conhecido por fazer shows no formato “stand up”, em que o humorista fica em pé sem estar caracterizado por personagens contando histórias engraçadas de fatos cotidianos. E há pouco tempo, sua fama aumentou por fazer perguntas polêmicas a políticos (aquelas que todo cidadão tem vontade de perguntar), que, na maioria das vezes, os deixa sem resposta, no programa CQC.

O Twitter é um site de relacionamentos que tem a característica de um “mini blog”. Nele, as pessoas escrevem, em frases curtas, o que sentem, situações que passam etc.

A piada escrita nesse site é a seguinte:
“Agora no Tele Cine, King Kong, um macaco que depois que vai para cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”


Existe uma ciência humana, a Linguística, que faz o estudo científico da língua, isto é, estuda a sua organização e estrutura interna.

A Análise do Discurso é um campo da linguística especializado em analisar construções (ideológicas) de sentido presentes em um texto, o discurso. Por sua vez, o discurso é o efeito de sentido gerado do resultado da enunciação, o momento em que o enunciado é feito, e do enunciado, sequência acabada de palavras de uma língua, levando em conta as seguintes características, já sendo aplicadas no texto estudado:
a) Sujeito enunciador: É quem produz o discurso. No caso estudado, é alguém muito conhecido em seu meio social;
b) Interlocutor: É para quem o discurso foi direcionado. Neste caso, a sociedade, num primeiro momento, aqueles que acessam a Internet (condição de produção), depois se difundiu para as outras parcelas da população;
c) Contexto histórico-social: É o tempo e o espaço onde o discurso foi dito. Neste caso, Brasil, início do século XXI, onde a sociedade ainda sofre com os resquícios de séculos da escravidão de negros, abolida em 1888 e que a prática de racismo é considerada crime. É a característica considerada mais importante para a repercussão da polêmica;
d) Condições de produção: podemos considerar dois aspectos. O gênero textual ‘piada’ que, por ter como característica um final engraçado e/ou surpreendente, está sujeito a interpretações do interlocutor, ou seja, este gênero permite uma maior relação entre o dito e o subtendido, através de construções ambíguas. Outra condição é onde o texto foi produzido, na Internet, ferramenta de uso de milhares de pessoas diariamente.

Todas essas características juntas foram a causa da repercussão polêmica.

Além do mencionado acima, o estudo discursivo considera as relações que esse ‘dito’ (o discurso) estabelece com o que já foi dito antes e, até mesmo, com o não-dito, o subtendido.

No texto estudado, nota-se uma comparação do macaco King Kong a um jogador de futebol. Em relação ao ‘dito antes’, a anedota não teria sentido se o interlocutor não conhecesse a história do King Kong, nem a coincidência de muitos jogadores de futebol “famosos”, negros, ou não, se relacionarem com mulheres loiras, isto é, esse ‘dito antes’ é o conhecimento prévio do leitor ao ler a piada em questão. Mas também se dá ao fato de algumas piadas e comentários racistas feitos anteriormente comparando o homem negro a um macaco, pois se nunca antes ninguém tivesse comparado um afro-descendente a um macaco, a piada não teria o provável cunho racista.

O ‘não-dito’ é a interpretação subjetiva do discurso, ou seja, é o que não está explícito no discurso e o sujeito quer, ou não, passá-lo ao interlocutor. No caso da piada, não está especificado a etnia do jogador de futebol comparado ao macaco em questão, se o autor comparou a um jogador negro, vai da interpretação de cada leitor. Agora, se o humorista teve a intenção de fazer com que a sua piada fosse racista, provavelmente não, pois ele justifica a sua anedota “reparem: na piada do King Kong, não disse a cor do jogador. Disse que a loira saiu com o cara porque é famoso. A cabeça de vocês que tem preconceito [...]”.

A Análise do Discurso foi utilizada para mostrar as causas da polêmica gerada pela piada do humorista Danilo Gentili por ter um provável cunho racista. E também foi utilizada para verificar se há ou não o racismo na anedota: em relação ao ‘dito’, não há, pois não está explícito no texto; em relação ao ‘dito antes’, pode ser, pois há jogadores negros e brancos que se relacionam com loiras no Brasil; e em relação ao ‘não-dito’, fica a critério de cada leitor constatar racismo na piada.

Natassia

12 comentários:

Natassia Contrera disse...

Referências Bibliográficas

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1995
BRANDÃO, H. H. N. Introdução à Análise do Discurso. Campinas: Unicamp, 1994
FIORIN, J. L. Elementos da Análise do Discurso. São Paulo: Contexto, 1992
FRASSON, C. B. Análise do Discurso:
Considerações básicas. Disponível em site fucamp. Acesso em 05 ago. 2009
ORLANDI, E. P. A linguagem e seu funcionamento. Campinas: Pontes, 1987

Vévs disse...

Frasezinha que gera uma polêmica mesmo, mas fica a duvidar se ele fez ou não de propósito já que o jornalismo é humorístico. Ai realmente vai de cada um, de cada leitor.

jonatan disse...

muito legal o texto...mas creio que o Danilo Gentili deixou em aberto a intenção de racismo, ou seja, ele deixou pra quem fizesse a leitura da frase que tirasse sua própria conclusão e na maioria dos casos as pessoas são racistas rsrsrs

Ele disse : está pensando que é jogador de futebol...

que é a relação deles com as louras e não por serem Negros

mas esse papo está muito sério hauhahauu

Marcella disse...

É dona magistra...interessante a análise do discurso...

Rafaela disse...

Amei o seu texto, não conhecia a Análise do Discurso. Assim como esse texto, pode-se fazer de qualquer coisa neste mundo. Muuuito bom, parabén

Anônimo disse...

Adoro o Danilo Gentili. Leio o blog dele, vejo ele entrevistando os políticos no CQC, as materias dele no Senado são melhores que a dos outros CQC. Ele é muito fera, as piadas dele são bem feitas e raxo o bico. Mas com essa piada ele pisou na bola, e feio. Se ele quis provocar, não sei. Mas que quase se ferrou, isso sim. Mas depois deste texto, acho q ele fez de propóstio mesmo, pra provocar. O que ele vive fazendo. Parabéns pelo texto, amei

Anônimo disse...

É, esse texto deixa em aberto a questão: Ainda existe racismo no Brasil. Mesmo com as leis, as cotas, etc. Aliás, as cotas podem ser manifestações de racismo implícitas, pois está subestimando a inteligência negra. Os negros são tanto quanto inteligentes e capazes de entrar numa faculdade de qualidade que os brancos.
O final do texto tá bem concluido, "o ñao dito [realmente] vai de cada leitor".

Anônimo disse...

Danilo é fera, mas dessa vez ele exagerou. Mto bom o texto, o blog... Continue assim

Anônimo disse...

nunca tinha pensado por esse lado. É o melhor texto do blog até agora

Anônimo disse...

Danilo é fera e vc tbm, mto bom!!!

M. Kuroda disse...

Bom texto!

Esse é o principal fundamento da AD. Pensar na plurissignificação através da linguagem, da ideologia e do contexto-histórico. É passar uma peneira nos significados.

A relação do " dito e nao-dito"- o discurso não tem fim, um discurso remete a outro (Bakhtin) - é realmente mto interessante.

Natassia disse...

tenho muito orgulho deste texto, até hoje rende comentários hehehe. ele é o precursor do meu blog, o maior interessado (Danilo Gentili) leu e "amou" e eu aprendi os princípios da AD com ele. Realmente foi uma fase memorável a que fiz este texto. Obrigada a todos que visitam meu blog.